Quarta-feira, Março 14, 2012



E ainda há sítios assim, onde se respira o silêncio e onde parece que o tempo parou por breves segundos. Ainda há locais onde as gentes se cruzam e se saudam como desconhecidos há muito conhecidos. São locais destes que gosto, que me sentem, e que eu sei que estarão lá eternamente, para mim ou para os outros, para quem lá passar, para aqueles que acreditam na sua eternidade.
Estive aqui, mas antes já o havia feito, num sonho destruído por um ruído. Agora sei que não há ruído que destrua a memória e as fotografias que gravei no meu ser. Antes, acordaram-me e eu saí dali, de memória vazia, apenas com impressões e incertezas da realidade. Agora sei, o que é estar ali, no topo da cidade da luz, onde os enamorados se erotizam em palavras e actos, onde eu fui feliz com Amor a mim própria, onde me encontrei.
A cidade esteve a meus pés, e foi real. Tudo a meus pés, tal como um nobre, digno de uma realeza. Esteve a meus pés, mirei-a em todos os pontos cardeais, senti-lhe as brisas, os aromas, as mensagens dos pintores de rua, senti-lhe o cheiro das tintas, as telas escorrendo o líquido da alma, senti-lhe. E foi real...

Foto: Montmarte, Paris
Quando: Março de 2012
Quem: Eu e apenas eu, Janete Marques Gameiro

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012



Há quem a amarrote num papel e dela faça troça, não agradeça o bem que tem, nem os momentos que ela proporciona. Sim, o que é a vida senão um bocado de papel amarrotado, destrutível e sem qualquer tipo de poder. Quando menos se espera aparece uma pequena tempestade e faz este papel, frágil e inocente, viajar pelos ares como que perdido entre as brisas.
No entanto, este pedaço de papel é muito mais do que isso. Tem um poder incrível de proporcionar sentimentos únicos, memórias futuras, fotografias intensas, baús de estórias, lágrimas de alegria, sorrisos de tristeza, e uma infinidade de segundos vivos. Sim, isto é a vida. Um papel livre e indefeso, mas uma poderosa arma contra a melancolia.

Foto: Life
Onde: Cruz de Pau, 15 de Fevereiro de 2012
Quem: Eu, Janete Marques Gameiro

Domingo, Fevereiro 05, 2012



Ilusão
Quando pensares que tudo vai correr bem, quando te disserem que tudo vai ser brando, quando te disserem que a certeza é certa... não acredites... é tudo uma ilusão.
Quando julgas que o Marquês te dará esperança, que não te abandonará, que vai acreditar em ti... não acredites, é pura ilusão.
De repente todos os seres que por ti passam transformam-se em estátuas de pedra, que brotam água pela boca, que riem em silêncio e gozam com a tua ilusão. Gozam por teres acreditado que outros acreditavam em ti. É pura ilusão. Todos os teus sonhos são pura ilusão. Não existem, são sonhos e não há esperança que as faça realizar. Tudo e mero poder de uma ilusão... apenas isso ilusão. Quando tem que ser tem que ser... e não há acreditar que faça concretizar. A famosa frase "não sejas pessimista" não existe, o pessimismo apenas é, e nada mais do que, um alerta para a realidade, para o que vai acontecer. O "não" é garantido, e quando tem que ser é-o mesmo e não é só uma garantia,é uma não opção, é uma certeza. O "não" é a única opção!Assim estou e assim ficarei, porque a vida é uma rosa, bela, cheirosa, poderosa, crescente, boa, mas com espinhos...

Foto: Fonte de Pombal
Data: 05 de Fevereiro de 2012
Quem: Eu, Janete Marques Gameiro

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012



Ao som dos cânticos menores, um povo pára e escuta com atenção as vozes de um futuro. Inocentes invocam o Natal, no rescaldo de mais uma festa recheada de dádivas divinas. Nas ruas frias, escuras e solitárias, apenas um ou outro ser arrasta-se entre as brumas geladas. Lá dentro o calor teima em se fazer sentir, as pessoas, os pequenos seres buscam-nos em agasalhos e movimentos pendulares. O som dos pequenos cantores ouve-se e ajuda a esquecer o frio... mais uma vez estou aqui entre as pessoas e também atentamente ouço estes pequenos sons, que emergem de pequenas almas, repletas de pureza e imaculadas.
Foi uma noite, uma boa noite, onde se ouviu um rasgo de sensações, neutros de arrogância, ausentes de tristeza, apenas uma chuva de estrelas, pequenas mas intensas com um brilho rasgante...

Foto: Concerto ano novo na Igreja de Santiago de Litém
Txt: Cruz de Pau, 01 de Fevereiro de 2012
Quem: Janete Marques Gameiro

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012



Porque estar só não é a mesma coisa que estar sozinho... nem quando se julga que estamos numa subida solitária. Há sempre algo que nos mira, que nos protege, uma espécie de Anjo, uma luz, uma motivação que nos empurra e nos dá aquele puxão quando tudo parece imenso e sem fim.
Quando estamos sós e não sozinhos é o momento perfeito, onde o Eu casa com o nós e o intenso, ilumina a escuridão que parece não ter luz. Porque, sim, um sentimento quando vem cá de dentro não pode estar errado, não pode ser ignorado, é algo puro, que vem de dentro de nós, algo que resulta de uma mão de sentimentos,não, não pode estar mal, não pode ser imperfeito, não pode ser torto, tem que ser direito, como os dedos que me deslizam como se piano eu tocasse.
É perfeito, um momento perfeito, aquele em que sentimo-me só, com um sentimento meu...

Foto: Pombal, escadaria de Sto. Amaro
Txt: Cruz de Pau, numa noite gelada, a 16 de Janeiro de 2012
Quem: Janete Marques Gameiro

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011



Pode não parecer, mas esta sou eu ao som de uma vela. Sou eu, como estou, como me transformei, isto é o que me dás, momentos à luz pura.
Estou só, neste meu mundo. Estou como escolhi estar e como me obrigaste a fazê-lo. Escrevo para me libertar, é assim que o gosto de fazer, palavrear, num muro escuro, onde apenas lê quem sabe o que ler. Tu não.
Hoje até foi um bom dia, que assim terminou à luz de uma vela, abandonada num canto qualquer, mas que esta noite é a minha mais preciosa e melhor companhia. Apagou-se há momentos, mas já arde de novo, como se fosse a primeira vez e como se entendesse o que preciso. Ela sim, sabe o que preciso e não ne falha. Tu não.
É assim que quero, que nunca me falte a luz, a minha luz, algo que me dê luz. É assim que estou, mas apenas esta vela é a minha luz, porque a que de dentro de mim deveria surgir está hoje apagada.
Não sei onde estou, nem para onde vou. Mal sei quem sou, nem o que serei. Apenas uma certeza vive em mim, o calor desta luz, que hoje e outros dias não hesita em fazer-me companhia.
Não percebes, eu também não...

À luz da vela (Casal da Mouca, Pombal)
Janete M. Gameiro

29 de Dezembro de 2011

Terça-feira, Dezembro 27, 2011



Apetites

Às vezes apetecia-me deixar-me levar pelos instintos que me chamam...
Às vezes gostava de saber nadar melhor para neste mar partir...
Às vezes o meu oceano é pequeno demais para a imaginação e para as palavras que recebo...
Às vezes sou imensa para os sonhos que carrego, mas por vezes são eles grandes demais para mim...
Às vezes tenho certezas, outras vezes incertezas...
Às vezes as noites são longas, os dias curtos e os momentos uns miseros segundos...
Às vezes queria ter dons... dom de voar... dom de palavrear-te... dom de não olhar para trás... dom de não saber chorar, só sorrir...
Às vezes sou um oceano de sensações, mas outras um mero rio que as transporta e as larga num mar...
Às vezes podia ser melhor para contigo...
Às vezes podias ser melhor comigo...
Às vezes podiamos ser os dois um só, um só beijo, um só abraço, um só sorriso, um só ser...
Às vezes nunca o somos, porque tu és o sol e eu a lua, vivemos em horas diferentes, temos missões distintas e apenas somos um quando um elipse se dá...
Às vezes não gosto de ser assim... mas somos...
Às vezes queria entrar em ti, parar o tempo e nadar neste oceano... sim, queria parar o tempo para ir ver...
Às vezes... eu estou aqui e tu não... sempre!

Janete M. Gameiro
Um mar de alguém...
28 de Dezembro de 2011